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Quando o Capricho Vira Controle
Como a vontade de fazer bem pode virar uma exigência de que todos façam do nosso jeito.
Você quer que algo seja bem-feito ou precisa que seja feito exatamente como você faria?
A diferença parece pequena enquanto estamos falando apenas do nosso trabalho. Mas ela fica menos confortável quando outras pessoas entram na história. Até onde vai a responsabilidade de cuidar de uma coisa? Em que momento começamos a exigir que o outro adote também nossos hábitos e preferências?
Na seção “Perfeição”, do primeiro volume de Transurfing, Vadim Zeland acompanha essa passagem. Ele começa com uma qualidade bastante respeitada: a vontade de fazer tudo direito. Poucas páginas depois, chega à figura de alguém que se considera autorizado a decidir como todos devem viver.
🎭 O padrão ganha um dono
Zeland faz uma distinção logo no início: não há nada de errado em procurar fazer bem o que fazemos. O problema aparece quando a exigência deixa de se referir a uma atividade e passa a organizar nossa relação com tudo.
Uma tarefa tem um propósito. Pode ter critérios de qualidade, um prazo, consequências para outras pessoas. Há motivos reais para revisar, corrigir e pedir que algo seja refeito.
Só que, na descrição do autor, a busca pela perfeição avança sobre os gostos e hábitos de quem está ao redor. Já não basta que uma coisa funcione. O jeito de realizá-la também precisa passar pela nossa aprovação.
Zeland escreve que “o idealista é exigente não só consigo, mas com os outros também”. Costumamos olhar para o perfeccionismo pelo sofrimento de quem se cobra. Aqui, precisamos olhar também para quem convive com essa cobrança.
Você consegue reconhecer um resultado bom quando o caminho até ele foi diferente do seu?
Se a resposta for não, vale perguntar o que exatamente está sendo protegido pela correção.
🌊 A boa intenção também pode dar ordens
A pessoa se dedica tanto a um padrão que começa a se identificar com ele. Na descrição de Zeland, passa a acreditar que suas decisões são sempre corretas porque se esforça para fazer tudo certo.
A discordância do outro, então, fica difícil de receber. Pode parecer falta de atenção, de maturidade ou de compromisso. A possibilidade de que existam critérios diferentes perde espaço.
O autor usa a imagem de um juiz: alguém que se atribui a missão de determinar o que os outros devem valorizar, pensar e buscar. Mas o motivo dessa pessoa não precisa ser crueldade. Zeland fala de um “desejo autêntico de colocar a todos no caminho da verdade”.
A boa intenção pode ser sincera e, ainda assim, deixar pouco espaço para o outro.
Se estou convencido de que sei o que é melhor para você, posso começar a tratar sua recusa como mais um defeito a corrigir. A minha ajuda deixa de depender da sua participação. Passo a insistir porque acredito que você ainda não entendeu.
Zeland explica essa escalada por meio das forças de equilíbrio do seu modelo. Não precisamos tomar essa explicação energética como um fato científico para examinar a situação que ele descreve: uma preferência se transforma em certeza, e a certeza passa a justificar ordens.
💡 Uma preferência pode continuar sendo uma preferência
A saída não exige abandonar critérios. Há uma diferença entre responder por aquilo que afeta outras pessoas e querer decidir tudo por elas.
Um acordo descumprido pede uma conversa. Um risco real pode exigir intervenção, e quem responde por um trabalho precisa definir o que será aceito. “Deixar o outro ser” não pode servir de desculpa para omissão.
Mas nem toda diferença pertence a essas categorias.
Às vezes, o que nos incomoda é uma escolha que não faríamos. Podemos dizer “eu prefiro assim” sem transformar essa preferência em “isso está errado”.
Penso num molde de cerâmica. Ele é útil quando queremos reproduzir uma forma. O problema começa quando olhamos para toda peça que não cabe nele como se estivesse malfeita. Pode ser outra peça, feita para outro uso. Antes de corrigir suas curvas, precisamos entender o que ela pretende ser.
Essa imagem é uma maneira de levar a reflexão do livro para a convivência. Não somos objetos moldáveis, e o conhecimento que temos sobre alguém não nos dá posse sobre suas escolhas.
O seu padrão pode orientar o que você faz sem governar quem está ao seu lado.
Talvez reste um incômodo quando o outro fizer diferente. Podemos suportá-lo por um momento, sem exigir que o outro mude só para aliviar esse incômodo.
E há uma dificuldade a mais: perceber esse mecanismo pode virar uma nova ocasião de superioridade. Seria fácil terminar a leitura identificando quem, na nossa vida, “precisa aprender a não controlar”. A investigação perde força quando só serve para examinar os outros.
🎯 Antes da próxima correção
Na próxima vez que sentir vontade de corrigir alguém, escolha uma situação cotidiana, segura, sem risco ou urgência. Não use este exercício para adiar uma intervenção necessária.
Antes de falar, tente responder:
O que precisa ser cuidado aqui?
Procure nomear algo concreto: um efeito sobre outra pessoa, uma responsabilidade sua, um acordo entre vocês. Se não conseguir, considere a possibilidade de estar diante de uma preferência.
Esse critério chegou a ser combinado?
Uma expectativa silenciosa pode parecer óbvia para quem a carrega. Para quem recebe a cobrança, talvez esteja aparecendo pela primeira vez. Se faltou um acordo, a conversa precisa começar por aí.
Há espaço para um jeito diferente?
Se houver, experimente não pedir o ajuste. Observe se o resultado continua atendendo ao que importa, mesmo sem reproduzir sua maneira de fazer. Você não precisa gostar de tudo para reconhecer que a outra pessoa tem margem de escolha.
Se a correção for necessária, procure apontar o problema sem transformar a conversa num julgamento sobre quem o outro é.
Esta prática é uma adaptação editorial da leitura, não um exercício apresentado por Zeland.
💭 Reflexão da semana
Em qual relação você tem dificuldade de deixar uma preferência continuar sendo apenas sua?
O que você teme que aconteça se o outro fizer diferente?
📚 Para ir mais fundo
A leitura desta edição vem de Transurfing: escolha sua realidade — O Espaço das Variantes, de Vadim Zeland, na tradução de Júlia Bárány, publicada pela Barany. O trecho está no capítulo IV, “Equilíbrio”, na seção “Perfeição”. A página da editora apresenta o volume e as demais obras do autor.
Vale ler essa seção sem procurar um retrato de alguém conhecido. Observe primeiro a passagem entre querer fazer bem e acreditar que, por isso, você sabe como todos deveriam fazer.
🔥 Para lembrar
Cuidar de um resultado pode exigir uma correção. Conviver com alguém também exige descobrir o que não cabe a nós corrigir.
Onde você ainda poderia abrir esse espaço?
Forte Abraço,
Jonata