Os Andares da Alma

O que razão, vontade, imaginação, sentidos e memória têm a ver com a nossa vida interior.

Quando você diz que a sua mente não para, o que exatamente está acontecendo?

Em A Nuvem do Não-Saber, um autor anônimo do século XIV dedica alguns capítulos a essas diferenças. Ele escreve para alguém que está aprendendo a orar. Para evitar mal-entendidos na oração, quer que essa pessoa entenda melhor o que se passa dentro dela.

🌱 O que o livro chama de potências da alma

A palavra parece complicada, mas aqui potência significa uma capacidade da alma. O autor distingue cinco: razão, vontade, imaginação, sensualidade e memória.

O texto pertence à tradição cristã medieval. Não é uma descrição científica do cérebro, nem usa todas essas palavras como usamos hoje. Ainda assim, suas distinções ajudam a fazer uma pergunta bastante próxima: o que estou sentindo, imaginando ou escolhendo neste momento?

A razão é a capacidade de discernir. No capítulo 64, ela distingue o bem do mal e, entre diferentes bens, procura o melhor. É mais do que conseguir argumentar ou ter uma opinião. Trata-se de avaliar o que merece ser escolhido.

A vontade é a capacidade de escolher e amar o bem reconhecido pela razão. Saber o que seria bom e querer esse bem não são a mesma coisa. Por isso o autor trata as duas capacidades separadamente. Também avisa que a vontade pode se enganar: algo pode parecer bom sem realmente ser.

A imaginação forma imagens. Ela representa coisas presentes ou ausentes. No capítulo 65, o autor descreve a dificuldade de quem começa a orar e encontra a mente cheia de imagens que não consegue afastar. A imaginação deveria servir à razão, mas nem sempre acompanha a direção que queremos dar a ela.

A sensualidade é a nossa relação com o mundo pelos sentidos. A palavra não significa apenas sexualidade. Inclui sentir prazer e desconforto, buscar o que agrada e rejeitar o que incomoda. O capítulo 66 distingue a necessidade do corpo do apetite por mais: precisamos nos alimentar, mas podemos continuar buscando o prazer da comida além da necessidade.

A memória tem um sentido mais amplo do que recordar o passado. O autor diz que ela contém as outras capacidades, suas atividades e aquilo com que elas se ocupam. Dentro desse modelo, ela não executa mais uma tarefa ao lado de imaginar ou escolher; compreende o conjunto da vida interior. Por isso, quando o livro fala da memória ocupada com algo, não está falando apenas de uma lembrança antiga.

Sentir, imaginar, compreender e escolher acontecem em você, mas não são a mesma coisa.

👁️ Por que algumas são principais e outras secundárias?

O autor chama razão, vontade e memória de capacidades principais. Imaginação e sensualidade são secundárias porque dependem dos sentidos e das imagens das coisas corporais. Razão e vontade, no entendimento dele, podem se ocupar de realidades espirituais sem depender dessas imagens.

É uma hierarquia própria daquele pensamento religioso. Mas seria um erro concluir que os sentidos são maus ou que a imaginação deveria desaparecer. O livro reconhece necessidades reais do corpo. Sua preocupação é com a ordem entre essas capacidades: a imaginação deveria servir à razão, e os apetites, ser orientados pela vontade.

O problema é que essa ordem se desfaz. Podemos desejar algo que nos faz mal, formar imagens que nos confundem ou ter dificuldade para discernir o que é bom.

O autor explica essa desordem pelo pecado original e diz que a graça de Deus é necessária para restaurá-la. Essa é a explicação religiosa do livro. Podemos reconhecer as dificuldades que ele descreve sem apagar essa explicação ou fingir que ela é uma teoria moderna sobre a mente.

💡 Os três andares: das coisas ao autoconhecimento e à contemplação

No capítulo 67, o autor deixa de descrever as capacidades e passa a perguntar com o que elas estão ocupadas. É uma mudança importante: as cinco potências não viram cinco lugares dentro de nós.

Ele usa três expressões: abaixo de si, dentro de si e acima de si. Podemos imaginá-las como andares de uma mesma casa, desde que lembremos que isso é uma imagem. O próprio capítulo adverte contra entender fisicamente o que tem sentido espiritual.

Quando estamos ocupados com as coisas corporais, o autor diz que estamos abaixo de nós. A atenção está no que percebemos pelos sentidos ou representamos em imagens. Isso pode acontecer até com uma finalidade boa. A expressão descreve o objeto da atenção, não significa que cuidar do corpo seja uma falha.

Quando procuramos conhecer nossas capacidades, virtudes e vícios, estamos dentro de nós. Já não estamos apenas sentindo ou desejando: estamos tentando compreender como sentimos e desejamos. É o trabalho do autoconhecimento.

Por fim, ele fala em estar acima de nós e abaixo de Deus. Refere-se à contemplação, em que a alma se volta a Deus, em vez de se ocupar com as criaturas ou com a análise de si mesma. Essa união acontece pela graça e é descrita como união “em espírito, no amor e na concordância da vontade” — tradução livre do capítulo 67.

Esse último ponto não equivale a ficar com a mente vazia. Também não significa desligar todas as capacidades: o amor e a vontade continuam presentes. O que o autor afirma é que essa união com Deus ultrapassa aquilo que podemos alcançar apenas por nossas forças naturais.

Há uma distinção que vale guardar: conhecer o próprio funcionamento e contemplar Deus não são a mesma atividade. O livro valoriza o autoconhecimento, mas não o confunde com o destino da oração.

🎯 Uma maneira de experimentar essa distinção

O exercício abaixo é uma adaptação editorial para a vida cotidiana, não uma reprodução do método de oração do livro.

Durante a semana, quando perceber um desejo insistente ou uma distração, procure descrevê-lo com um pouco mais de precisão.

Comece pelo corpo. Há fome, cansaço ou algum desconforto que precisa de cuidado? Se houver uma necessidade, reconheça-a antes de transformar tudo em um problema espiritual.

Depois, perceba o que a imaginação acrescenta. Há imagens se repetindo? Você está ocupado com algo presente ou com a representação de algo ausente?

Por fim, examine o que deseja. É uma necessidade, a busca de um prazer ou a tentativa de afastar um incômodo? O que você considera bom fazer diante disso? Essas perguntas aproximam a observação do discernimento e da escolha.

Você não precisa separar tudo perfeitamente. As capacidades trabalham juntas. Basta conseguir uma descrição um pouco mais clara do que “minha mente está uma bagunça”.

A proposta fica aí. Ela ajuda no autoconhecimento; não serve para determinar se você chegou a algum estado de contemplação.

💭 Reflexão da semana

O que você consegue perceber quando deixa de chamar tudo de pensamento e distingue o que sente, o que imagina e o que deseja?

📚 Para ir mais fundo

Leia os capítulos 63 a 67 de A Nuvem do Não-Saber. O capítulo 63 apresenta as capacidades; os seguintes explicam razão e vontade, imaginação e sensualidade. O 67 relaciona essas distinções ao autoconhecimento e à contemplação.

A versão em inglês da edição de Evelyn Underhill está disponível no Internet Sacred Text Archive, a partir do capítulo 63.

🔥 Para lembrar

Nem tudo o que acontece dentro de nós pede a mesma resposta. Uma necessidade do corpo pede cuidado; uma imagem pode ser examinada; um desejo, compreendido antes de orientar uma escolha. O que fica mais claro quando você presta atenção nessas diferenças?

Forte Abraço,
Jonata