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Acordar Duas Vezes
Como sonhos lúcidos e micro-momentos de encantamento revelam que a consciência nunca dormiu

Toda noite, você entra num mundo inteiro.
Um mundo com cores, rostos, paisagens, emoções. Um mundo criado inteiramente pela sua mente. E durante o sonho, você acredita que é real. Completamente. Sem um pingo de dúvida.
Então você acorda. E pensa: "Era só um sonho."
Mas é possível acordar dentro do sonho. Existe um estado em que você percebe que está sonhando — sem sair do sonho. A consciência se acende como uma luz no escuro.
E se você também pode acordar dentro da vida?
🌙 A Consciência Que Não Dorme
Sonhos lúcidos. Talvez você já tenha ouvido falar. Talvez até já tenha experimentado — aquele momento raro em que, no meio de um sonho, algo dentro de você percebe: isso é um sonho.
Um grande estudo publicado no Journal of Neuroscience em 2025 mapeou com detalhes as assinaturas eletrofisiológicas dos sonhos lúcidos, encontrando maior atividade no precuneus e aumento de conectividade em redes cerebrais ligadas à autoconsciência.
Em palavras simples: durante um sonho lúcido, áreas do cérebro que normalmente ficam "desligadas" durante o sono se acendem. É como se uma parte de você — que deveria estar dormindo — acordasse.
A Fiocruz confirmou algo ainda mais fascinante em suas pesquisas sobre o sono: a consciência pode surgir durante o sono sem que a pessoa desperte. Você está dormindo. Seu corpo está paralisado. Seus olhos se movem. E no entanto, alguém lá dentro está acordado.
Mas esse "alguém" que acorda dentro do sonho — quem é?
Não é o personagem do sonho. O personagem é parte do cenário, parte da criação da mente. Quem acorda é algo anterior ao cenário. Algo que observa sem ser observado. Algo que persiste mesmo quando o conteúdo muda.
O Observador.
🌊 O Sonho Dentro do Sonho
Existe uma pergunta que os filósofos fazem há milênios e que o sonho lúcido torna brutalmente concreta:
Se o sonho parece completamente real enquanto dura, como você sabe que a vigília não é outro tipo de sonho?
Pense nisso por um momento.
Enquanto você sonha, tudo faz sentido. A gravidade pode não funcionar direito, as pessoas podem mudar de rosto, o cenário pode se transformar — e ainda assim, nenhuma parte de você questiona. A mente sonhante aceita tudo.
E agora, neste exato momento, lendo estas palavras, existe alguma parte de você questionando se isso é real?
Provavelmente não. Porque a mente que está acordada faz a mesma coisa que a mente que está sonhando: aceita o cenário como dado.
O sonho lúcido é aquele instante raro em que a aceitação automática se rompe. Uma fresta de consciência se abre. É como se as ondas na superfície do oceano parassem por um instante — e você vislumbrasse a profundidade silenciosa que sempre esteve ali, por baixo de toda agitação.
Não é diferente do que acontece nas práticas contemplativas. A meditação, a auto-inquirição, a presença — todas essas práticas são formas de criar essa fresta na vigília. De perceber que talvez estejamos tão imersos na narrativa do dia a dia quanto estávamos no sonho da noite passada.
O sonho lúcido é a prova experiencial direta: existe uma consciência que persiste além do conteúdo da experiência. No sonho ou na vigília, há algo que pode acordar.
💡 A Versão Cotidiana do Despertar
Mas não precisa esperar o próximo sonho lúcido para experimentar isso. Existe uma versão mais acessível, mais imediata, mais gentil — e ela acontece quando você menos espera.
Chama-se encantamento.
O psicólogo Dacher Keltner, da UC Berkeley, dedicou anos a estudar o que ele chama de awe — aqueles micro-momentos em que algo te captura por inteiro. Uma luz atravessando as árvores. O riso de uma criança. A imensidão do céu numa noite estrelada.
O que a pesquisa mostrou é impressionante: esses breves instantes de maravilhamento — de apenas alguns segundos — reduzem o estresse em até 20%, diminuem queixas físicas e aumentam significativamente o bem-estar. Um estudo de diário com 269 adultos durante 22 dias confirmou: pessoas que viviam mais micro-momentos de encantamento se sentiam melhor em praticamente todas as dimensões medidas.
Mas o mais interessante é o que acontece por dentro.
Nos momentos de encantamento, algo extraordinário ocorre: a mente pensante silencia espontaneamente. Sem esforço. Sem técnica. Sem meditação formal. O ego dissolve por um instante. O tempo parece parar. E você simplesmente está ali.
Dr. David Hawkins descrevia estados semelhantes em sua escala de consciência: à medida que a percepção se eleva, o mundo parece se tornar naturalmente encantado. Não é que a realidade muda — é que a consciência que a observa se liberta dos filtros.
Percebe a semelhança?
No sonho lúcido, a consciência acorda dentro do sonho. No momento de encantamento, a consciência acorda dentro do cotidiano.
É o mesmo movimento. A mesma fresta. A mesma luz.
A diferença é que o encantamento está disponível agora. Neste momento. Sem precisar adormecer primeiro.
🔥 A Criança Que Você Era
Sabe quem vive naturalmente nesse estado?
Crianças.
Observe uma criança pequena diante de uma poça d'água. Ela não vê H₂O refletindo luz solar. Ela vê um universo inteiro. Cada folha que cai é um acontecimento. Cada inseto é uma descoberta. O mundo inteiro é novo, misterioso, encantado.
Não é que crianças sejam mais inteligentes ou mais espirituais. É que ainda não foram treinadas para a indiferença.
A mente adulta aprende a categorizar, rotular, arquivar. "Já vi isso. Sei o que é. Próximo." Essa eficiência cognitiva é útil para sobreviver. Mas cobra um preço altíssimo: perdemos a capacidade de ver.
O encantamento não é um estado que precisa ser criado. É um estado que precisa ser desobstruído.
As camadas de "já sei", "já vi", "não é nada demais" são como a tela de projeções no sonho: parecem reais, mas são construções da mente. Quando uma dessas camadas se dissolve por um instante — diante de um pôr do sol, de uma música que arrepia, de um silêncio inesperado — o que aparece por baixo é o mesmo encantamento que a criança nunca perdeu.
Porque nunca foi da criança. É da consciência.
📚 Recomendação de Conteúdo
"The Fascinating Neuroscience of Lucid Dreaming" —
Um artigo que explora as descobertas mais recentes sobre o que acontece no cérebro durante um sonho lúcido. Escrito de forma acessível, mostra como a ciência está mapeando um fenômeno que antes era considerado puramente subjetivo. Para quem quer entender como a consciência pode estar presente mesmo quando o corpo dorme.
Para aprofundar o tema do encantamento, recomendo também o trabalho de Dacher Keltner — especialmente suas pesquisas sobre awe e as "caminhadas do encantamento" como prática de bem-estar.
Toda noite você entra num mundo criado pela sua mente e acredita que é real. A vida acordada pode não ser tão diferente.
Obrigado pelo seu tempo.
Forte Abraço,
Jonata